Enfim, juros de um dígito no Brasil Aumentar letra Diminuir letra
30 de Junho de 2009

Por Mônica Mercês
(Economista e Coordenadora da Unidade de Pesquisas Técnicas da FIEPE)


Analisando os indicadores macroeconômicos nas últimas décadas, a sensação que se tem é que falamos de dois países. Um que vivia uma hiperinflação no início do ano de 1990, algo próximo de 400,0% nos primeiros três meses do ano, às vésperas do anúncio do Plano Collor que confiscou os recursos dos cidadãos brasileiros, e outro que em junho de 2009 tem a inflação controlada que não deve ultrapassar os 4,5% ao ano. Mas estamos mesmo falando de um só país: o Brasil.

Difícil acreditar, hoje, que suportamos um patamar de inflação e de juros tão irreal. Olhando para o passado podemos dizer, sem medo de errar, que somos heróis. Em março de 1990, a então Ministra Zélia Cardoso anunciou um pacote econômico bloqueando todos os ativos financeiros que ultrapassassem a quantia de NCZ$ 50 mil (cinquenta mil cruzados novos), transferindo-os para o Banco Central por um prazo de dezoito meses, visando reduzir a quantidade de moeda em circulação.

De acordo com os aniversários das contas à época ia sendo aplicada a correção monetária pelo IPC (Índice de Preços ao Consumidor), e sendo colocados à disposição do Banco Central os valores superiores a NCZ$ 50 mil. Essa manobra da equipe econômica do Presidente Collor, em seus primeiros dias de Governo, já sinalizava que outros desvarios viriam a compor a sua gestão.

Esse confisco trouxe efeitos danosos para os poupadores. Muitos observaram suas economias arruinarem do dia para a noite. Os que mais sofreram foram aqueles que possuíam contas com aniversário na segunda quinzena do mês, pois além de suas economias bloqueadas, deixaram de receber a correção monetária de março/1990 com base no IPC de 84,32%. Isso mesmo, 84,32% ao mês de inflação. Vivíamos numa economia completamente alucinada que nos fez perder, graças a Deus que apenas por um tempo, a noção do absurdo.

Entretanto, no Brasil de hoje os números felizmente são outros. Parece que nos curamos dessa loucura. E mesmo com todo estrago que a crise financeira mundial vem provocando nas diversas economias, a situação do País é verdadeiramente inacreditável se olharmos para 19 anos atrás, momento no qual se passou a narrativa anterior.

E nesse cenário alcançamos, enfim, a tão sonhada taxa
 
"Atingir essa taxa reflete solidez da economia e melhora a visibilidade no exterior"
de juros de um dígito. Agora são exatos 9,25% ao ano. A decisão do COPOM, em 10/06/2009, de reduzir em mais um ponto percentual os juros, foi acertada e deve ser comemorada pelo mercado. Desde 1979, é a primeira vez que a economia brasileira tem esse patamar de juros, o que já era esperado para este ano.

Entretanto, essa redução não influenciou a posição do Brasil no ranking de juros reais, que são obtidos após a dedução da expectativa futura de inflação. Permanecemos na terceira colocação, com juros reais de 4,9% ao ano, atrás da China (6,9% ao ano) e da Hungria (5,9% ao ano). É importante que se entenda que atingir essa taxa anualizada reflete muitos outros indicadores de solidez da economia brasileira, o que nos permite uma visibilidade cada vez melhor no mercado internacional.

Porém, há várias outras lições que o Governo precisa executar para não invalidar esforços como este. Controlar a inflação, reduzir os juros é parte de uma grande tarefa que envolve capítulos voltados às reformas fiscal, tributária e previdenciária. Sem dúvida esses serão grandes desafios que o novo Governante brasileiro terá quando assumir o seu mandato em 2011, pois até lá, bem sabemos o que acontece (ou não acontece) em ano de eleições majoritárias. Creio não precisar dizer, pois faz parte da nossa loucura atual.

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